Thursday, May 03, 2018

Atitude




Olá, não é para todos isto
de ser selvagem com o volume
da bagagem ocidental;
no clímax da meia-idade
é previsível já a quase-
-invariável rotina: i)
achar que não é para mim; ii)
aquiescer, eu, treinada
em variações de bardo (Deus,
faz com que eu nunca seja
uma poeta ressabiada),
na recondução ao redil; iii)
aceitar semi-lerda a classe
de trânsfuga descoberta; iv)
fingir que sou estrangeira
e não me altera esta bodega.

Monday, February 19, 2018

Um castelo de Sonetos (XIII)


Só húmido feltro rude mas justo —
proeza razoável face a outros
tristes coitos onde se esquiva a boca
ao corpo, onde se esconde o susto

se finge um pouco, se busca consolo
e se sai oco e desfalcado após
o grito. Ao menos nunca entre nós
sofremos disso, sempre um disse esfola

e o outro quase a bem assassinou.
No fim, o campo todo remexido
e nós dois pistoleiros muito unidos

nós preenchendo um único volume
na desordem, nós caos que atravessou
o fogo, parecendo à peste incólumes.

Sunday, February 04, 2018

Aliciamento

é altruísmo,
complacência
hubris ou satori
logo eu, aceitar
escrever polidamente
versos a perfurar
o nervo do mundo
ter vaidade ou servir
público de todas as idades
(recearei, como Brel,
definhar baladeira
poetèsse pour des gens
finissants
            se o que mais queria ser
            era bela e sacana também
            ao menos uma hora inteira)

sem contar com o pó
que o meu ex me tem
            (corja do chá inglês, acento
            de Oxford, fandango da BBC)

Antes marimbávamo-nos
para a salvação mansinha
tínhamos amor absoluto
e desprezo bruto
tínhamos precipícios
convenção abaixo
e fraternidade acima
— ou disso nos gabávamos
mas nem pestanejaríamos
por seviciar uma galdéria
em nome do assunto sério
            e radical da arte

Avante, como se queria,
e tanto que se balança
num castelo assombrado
por fantasmas desses dias
nossos corpos — não talhados
para os mútuos lançamentos
às jugulares do espírito —
ganhando bafio como frascos
de sofrimento azedo
e espessas películas,
paralisados os braços
pelos pulsos luminosos
da líbido

Houve, sim, igualmente primavera
em nossas vidas paralelas
— traças fugazes
pairamos na ascensão,
lepidópteros, de que faz troça
a luz

Então escolhes os copos
raspando das ressacas
o oleoso rancor
repassando-me a tremura
das asas
            — tive de espalmar
o teu torcido caráter
esfarelá-lo entre páginas
de linhas más
            feias, pequenas.

Então eis-me chegada
a escrever polida
encomenda para a BBC
            — pena de inoxidável
aço, compromisso burocrático,
sem zanga obscena, faca
na ferida, pingo sanguíneo ­—
estipêndio em libras
e mínimo perigo
sem contar
            que cínica

me havias de achar, meu doce
amante hypocrite
devasso leitor
que eu não desdenharia
seviciar


pelo meu verso perfurante.


Sunday, December 17, 2017

Sestina para Aurelia


Aurelia Plath, mãe, guardou entre os papéis
de Sylvia, filha, um ruivo rabo de cavalo,
puxo de cabelo cerce, ocorreu o corte
aos doze-treze, prenúncio duma morte
com sequelas. A angústia, uma tesoura
de ferro, escande, mancha sobre os retratos

todos, mesmo o da escola de arte, retrato
em três faces, tetraedros, grude em papel
sobre exóticas cores, vincos de tesoura,
talhado em esfinge o longo rosto de cavalo,
e algo de Índia e de karma, a má morte
que mãe alguma aguenta suspeitar, o corte

quando afinal ela era às vezes loura, o corte
quando tinha um mundo aberto, e nos retratos
ninguém a diz maluca, cortesã da morte —
de pequenina enfiada entre os papéis
ou nos bosques metida sobre o cavalo
Ariel, açulado, as pernas em tesoura,

assente quadril, livre rédea, tesoura
a toda a brida em direção à luz a corta-
-mato, a filha um só perfil com seu cavalo
em fogo e risco a lembra Aurelia —há um retrato
também de bicicleta e soquetes; os papéis
que ensaiou proliferaram, mas a morte

foi onde teve brio, Aurelia, ela jaz morta
e choram as mulheres, a parca co’a tesoura
daria até uma outra chance, outros papéis
se assim pudesse, um mais humano gás, um corte
em falso, mas a perda, mãe, face ao retrato
de antes não tem cura, a dor é um cavalo

torrencial, a tua filha é um cavalo-
relíquia inclemente da infância, a morte
é um mestre e levou-te todos, nos retratos
permanecem, pai e filha, uma tesoura
não aliviaria, por generoso corte
que aplicasse, há toda a sorte de papéis

e retratos, não há raízes para a morte;
pousa a tesoura, mãe sentimental que corta,
que faz um rabo de cavalo entre papéis?



Sunday, September 24, 2017

Bilinguismo

The window could take a scrub
but in bed it shed
fresh greenness
across the world from
where our limbs locked
tongues of tenderness
fighting losses.

A janela agradecia limpeza
mas entornava na cama
uma fresca verdura
atravessando o mundo
onde trancavam as pernas
nossas línguas ternas
contra algumas perdas
.


Wednesday, September 06, 2017

Este fruto o meu corpo

disse ela, dedicada,
“pele branca como a neve” por isso
ruídos de espinhos por isso este medo
pavor de crescer de ver
o corpo mudado em formas de pousar
as mãos curvas minha pele branca
como a neve por isso
o caçador ambíguo por isso
o coração terno por isso
o fígado colérico por isso
o tenro fruto alvo
que atravessa a úvula
dobrada de medo adormeço
abraçada ao abismo deslizo
na risca quebrada no espelho
sou a virgem a velha o fio
do punhal o caçador na floresta
a mãe à janela a lua a brilhar
a bruxa a estragar o fim
da festa
qual coisa carnal vulgar
rosa escura rosa rubra rosa
medusa brava a gritar
na noite um dom
todavia me unge
se insinua assim
porque não amor
caçador bom
quem parta comigo
este fruto o meu corpo
tomá-lo e comê-lo
que trago há tanto tempo
este sumo o meu sangue
tomá-lo e bebê-lo
que guardo por abrir faz
tempo no castelo
no trinco da garganta
na torre da neve
cujo morro inatingível
retoco com a boca, me movo
desengasgo, solto, escorro.

Wednesday, August 23, 2017

Caddy



Pensei imaginar-te outra vez nua entre
coisas brancas panos nuvens ovelhas e
camarinhas frutos pequeninos que os teus
dentes brancos ligeiramente inclinados
para a frente para um beijo para mim
trincam e tu tapas a boca com a mão
e cospes caroços desenhas nos lábios
um sorriso de vestal apanhada pelo sol

e tu à procura os meus olhos rasos
de assombro fundo rasos a sobrevoar-te
dentro do teu corpo maculado de ternuras
de ferida de raivas surdas de mínimos
tumores de marcas ausentes de todos
os amantes que tu não quiseste que
te quiseram morder tu não deixaste
até um dia te cansares de ser virgem

chegares a mim a tremer tu à procura
eu a detestar-te por alguém tinha de
haver alguém a quem detestar no teu
lugar em vez de ti se nem a mim ao fim
de contas tu não deixaste eu não pude
nunca tocar eu tenho os dedos brandos
mas só o silêncio grande os teus olhos
rituais mesmo assim mesmo quando

coloquei a minha cabeça no teu colo e tu
quase acreditaste e eu a querer-te vingando-
te cheiro a primavera pura nas tuas costas
dentes brancos frutos tu negaste nós as duas
a desejar que fosses talvez menos bela e tu
de desdém a beleza que te gastava tu sabias
e sabias e resignavas-te e eras um adorno
um risonho sacrifício de castidade passavas

a fingir que eras mais alta do que eu
eu consentia tu eras mais alta do que eu
e todos os que consentimos nos lembramos
de ti assim e fazem-se grandes rodas
de choro por ti e eu fico só choro-te só
a rasgar os retratos onde não apareces a
saudade dos teus gestos rendados das tuas
veias em teia à volta de dedos um rosário

de fios de lustro é assim que eu me lembro
de ti e os deuses olímpicos e os serafins
melindrados e todos quantos se lembram
de ti e ainda que se calhar nem sempre
tivesses nas mãos a claridade das violetas
eu recordo-te agora tinhas de certeza
violetas nas mãos quando foste embora
eu vi porque lá fora ainda havia dia.

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